terça-feira, 27 de janeiro de 2026

1. O corpo, esse detalhe inconveniente



Não foi tristeza, também não foi preguiça, nem falta de propósito, nem drama mal resolvido. Foi o corpo. Um dia ele simplesmente não acompanhou mais, como um carro rodando há quilômetros na reserva, passando por avisos ignorados, ruídos tolerados e alertas normalizados, até que parar deixou de ser opção e virou consequência.

Não houve um colapso espetacular, nenhuma cena dramática digna de comoção, apenas pequenas falhas acumuladas que começaram a reorganizar o cotidiano: levantar da cama virou tortura, tomar banho virou desafio, sair de casa passou a ser maratona, e atividades antes neutras (responder mensagens, cumprir horários, sustentar conversas) passaram a consumir uma energia que eu já não tinha.

Mesmo assim, segui tentando, porque sempre existe essa expectativa de que o corpo acompanhe o roteiro da pessoa responsável, produtiva e funcional que a gente foi um dia. Então eu insistia, empurrava, compensava, fingia normalidade, como se o esgotamento fosse apenas uma falha passageira, até ficar claro que não se tratava de fraqueza, mas de um limite ultrapassado há tempo demais.

Diante disso, fiz o que qualquer adulta funcional faz quando algo começa a dar errado por dentro: racionalizei. Chamei de fase, de cansaço acumulado, de fim de ano puxado, de excesso de demandas, de vida adulta mesmo. Disse a mim mesma que todo mundo estava assim, que era só atravessar mais essa semana, cumprir mais essa obrigação, entregar mais esse pedaço de mim, porque o feriado estava chegando, logo viriam as férias e, com um pouco de descanso, as coisas se ajeitariam, voltariam à normalidade.

Até que a frase apareceu com uma clareza incômoda, sem dramatização, sem poesia, quase como um aviso técnico: se eu continuar, eu quebro.

E quebrar não parecia um evento abstrato ou distante, mas algo muito concreto, quase mecânico, como quando a estrutura começa a ranger antes de ceder. Eu sentia culpa por diminuir o ritmo, desconforto por cancelar compromissos, vergonha por precisar parar sem ter um diagnóstico elegante para apresentar e uma estranha sensação de ilegitimidade, como se descansar sem febre, sem atestado visível e sem explicação simples fosse uma espécie de fraude moral. Eu não estava “doente” no sentido que tranquiliza os outros, mas também não estava bem o suficiente para continuar fingindo normalidade, e esse lugar intermediário, nem saudável, nem oficialmente adoecida, revelou-se um dos espaços mais solitários que já habitei.

E foi exatamente ali, nesse território sem nome, que a lógica começou a falhar de vez, porque eu já não conseguia sustentar a narrativa de que bastava força de vontade, organização ou pensamento positivo para atravessar aquilo, nem convencer o corpo a obedecer por argumentos racionais, listas de tarefas ou promessas de “só mais um pouco”. Quanto mais eu tentava explicar a mim mesma que parar não era opção, mais evidente ficava que continuar tampouco era, porque seguir adiante passou a significar um custo alto demais: cada compromisso cumprido exigia dias de recuperação, cada tentativa de normalidade deixava um rastro de exaustão ainda maior, como se eu estivesse pagando juros sobre um limite estourado há muito tempo.

Foi então que começou a surgir, ainda tímida e quase vergonhosa, a ideia de que talvez não fosse falta de resistência, mas excesso dela; talvez eu não estivesse desistindo cedo demais, mas tarde demais; talvez o problema não fosse o corpo que não acompanhava, mas a expectativa de que ele deveria seguir funcionando independentemente do desgaste, como se fosse um detalhe inconveniente e substituível da existência. E essa percepção não trouxe alívio imediato nem solução elegante, apenas uma pergunta incômoda, que passou a ecoar com insistência crescente: se continuar significa quebrar, o que exatamente eu estou tentando provar ficando de pé?


Lágrimas regando milagres

Fer

domingo, 11 de janeiro de 2026

A terapia do Xuxu



Cheguei à sessão de terapia levando, como de costume, uma lista invisível de cansaços: tarefas, expectativas, culpas, medos e aquela pergunta engasgada de sempre: “até quando eu vou aguentar?”. A psicóloga me ouviu em silêncio, como quem escuta um rio que está prestes a transbordar. Quando terminou, em vez de me oferecer mais uma técnica de meditação ou respiração, ela respirou fundo e perguntou, com a maior naturalidade do mundo:
— Você já pensou em ter um animal de estimação?

Respirei fundo também, mas por outro motivo. Expliquei que cães e gatos, por mais fofinhos que pareçam nas fotos, para mim são sinônimo de fobia: pelos, pulos, barulhos, imprevisibilidade demais para uma mente em burnout. Ela sorriu, respeitando o limite, e desviou a rota da sugestão:
— Então talvez um peixinho. Pequeno, silencioso, colorido. Um ser vivo para você cuidar, sem te invadir.

Não era o tipo de prescrição que eu esperava ouvir em consultório, confesso. Um peixinho no lugar de comprimidos. Um aquário no lugar de um atestado de afastamento. Mas a ideia ficou nadando na minha cabeça o resto do dia, como se abrisse uma janelinha de curiosidade no meio da exaustão.

A minha sobrinha Giovanna comprou a ideia e resolveu ser a minha cúmplice nessa missão aquática. Entramos na loja de animais como quem entra num universo paralelo: vidros alinhados, bolhas subindo, cores cintilando. Fui direto naquilo que sempre me guia nas decisões importantes, a cor: roxo. Eu e meu marido temos esse pacto cromático: se der para ser roxo, será roxo. Sapato, caneca, caderno, roupa, capa de celular. Faltava apenas um peixe.

Quando vi o pequeno beta roxo, elegante e delicado, nadando com calma de um lado para o outro, soube que era ele. Não parecia apressado, não parecia em pânico, não parecia cansado. Ele simplesmente… existia. Enquanto eu me perguntava como é que se começa uma nova fase da vida comprando um peixe, a Giovanna já estava animada me ajudando a escolher o aquário, as pedrinhas e os detalhes do novo lar do futuro integrante da família.

A atendente foi de uma gentileza quase terapêutica. Explicou sobre a água, a frequência das trocas, a quantidade certa de ração, o lugar ideal para o aquário ficar. Respondeu às minhas perguntas inseguras como quem orienta uma mãe de primeira viagem: sem julgamento, sem pressa, com paciência. Saí de lá com um kit completo: peixe, aquário, pedrinhas, ração e um manual mental de cuidados que, no fundo, era também um lembrete de como eu precisava reaprender a cuidar de mim.

Em casa, eu e meu marido iniciamos o ritual mais sério de todos: escolher o nome. Eu queria algo curto, sonoro e, principalmente, com a nossa cara. Ele me chama de Xuxu há anos, esses apelidos que vão grudando na rotina até virarem outra forma de dizer “eu te amo”. Testamos alguns nomes, rimos de outros, descartamos os mais óbvios. Até que ele sugeriu o inevitável:
— E se for Xuxu?

Ficou um silêncio curioso na sala, o tipo de silêncio em que o coração decide antes da razão. Repetimos em voz alta: “Xuxu”. O som encaixou. Tinha afeto, tinha graça, tinha uma intimidade que cabia naquele peixinho roxo nadando num pequeno aquário que contém um universo inteiro. E assim, oficialmente, o meu tratamento para burnout ganhou nadadeiras e um nome carinhoso.

O mais bonito é perceber que ele é terapêutico não porque faz alguma coisa extraordinária, mas justamente porque não faz. Xuxu não late, não mia, não pula no colo, não me chama para passear. Ele apenas nada. Vai e volta, sobe e desce, cria pequenas coreografias silenciosas que contrastam com o barulho do mundo, com as notificações do celular, com as urgências do calendário. Enquanto tudo lá fora grita por produtividade, ele é apenas presença calma num aquário sobre a mesa.

Cuidar dele virou um lembrete diário de que o tratamento não vem sempre em comprimidos, diagnósticos e comparação de exames. Às vezes, vem em grãos de ração na hora certa, em água limpa, em alguns minutos parada olhando um peixe que não está preocupado em corresponder à expectativa de ninguém. É nesse contraste entre o mundo acelerado e o pequeno universo aquático onde o tempo parece andar mais devagar.

Nos dias em que a culpa aparece: “Como é que eu dou conta de trocar a água do peixe e não dou conta de cuidar da minha vida?”, eu olho para o Xuxu e quase ouço a sua fala silenciosa e bem-humorada:
“Calma, humana. Hoje, enquanto você lembra que eu existo, eu também te lembro que você também existe, e isso basta!”.

Lágrimas regando milagres,
Fer

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

6. Dezembro e a Arte de Estar Presente

 


Chega dezembro, o mês mais bonito, luminoso e socialmente ativo do ano, cheio de promessas de alegria, encontros, abraços, comidas compartilhadas e aquela sensação coletiva de que todo mundo está feliz, disponível, com roupas novas e energia renovada.

É a temporada oficial das confraternizações, do Natal, do Ano Novo, das trocas de presentes, do amigo secreto, da trend das cores, do “cada um leva um prato”, das fotos sorridentes, das mesas fartas e das legendas que dizem “gratidão”. Tudo isso é bom. Encontros são bons, rituais fazem sentido, celebrar a vida é uma ideia maravilhosa.

E quando alguém falta a esses eventos, as pessoas sentem falta, mas entendem: dengue, garganta inflamada, torcicolo são problemas que levam os queridos a se ausentar dos eventos com indicação médica comprovada.

O problema começa quando o impedimento não é febre, nem dor nas costas, nem mosquito algum, mas algo bem mais difícil de explicar: a dificuldade de levantar da cama, de tirar o pijama, de pensar em comprar presente, de escolher papel de embrulho, de preparar um prato para levar, de sair de casa, de ficar mais de três horas fora, de socializar, de rir no tempo certo, de sustentar conversas leves, de fingir entusiasmo enquanto o corpo inteiro pede silêncio, sofá e recolhimento.

Porque ninguém sabe muito bem como lidar quando o motivo da falta não aparece em exame nenhum, não inflama, não incha, não sangra, mas impede. Esse cansaço que não é preguiça, essa exaustão que não é falta de vontade, essa falência interna que não ganha nome simples nem receita rápida. E o mais cruel é que, além de não ser facilmente compreendido pelos outros, ele começa a ser questionado pela própria pessoa, como se fosse exagero, drama ou incapacidade de lidar com algo básico da experiência humana.

É aí que surgem as perguntas clássicas, sempre feitas com boa intenção:
“Mas você vai ficar em casa?”
“Nem um pouquinho?”
“Você anda tão quieta…”
“Fica mais um pouco, vai.”
“É Natal.”

Como se a data tivesse propriedades terapêuticas, como se luzinhas piscando fossem antidepressivo, como se amigo secreto fosse tratamento para esgotamento profundo, como se a simples presença obrigatória pudesse, por milagre, transformar exaustão em alegria genuína.

É nesse ponto que eu começo a fantasiar com algo absolutamente improvável, mas que seria exatamente o que eu preciso: um atestado médico para faltar de mim. Um papel timbrado, assinado, carimbado, dizendo algo como: “A paciente encontra-se temporariamente incapaz de participar de confraternizações, celebrações prolongadas e interações sociais intensas. Recomenda-se afastamento da vida social, repouso emocional e silêncio.”

Nada dramático. Nada trágico. Apenas um documento que me poupasse explicações, olhares atravessados e aquele sentimento persistente de culpa por não conseguir transformar cansaço profundo em espírito natalino.

Porque, no fundo, a prescrição de que eu preciso não é de ceia, nem de presente, nem de roupa nova, nem de promessa de ano melhor. O que eu preciso não cabe na agenda de dezembro. O que eu preciso não vem embrulhado. O que eu preciso é de descanso existencial.

Lágrimas regando milagres,

Fer.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

5. Depressão Reativa, Osmose e Outros Milagres da Psiquiatria Moderna

 


Entrei no consultório cansada. Não aquele cansaço de Garfield, do tipo “ai, que preguiça de segunda”, mas um cansaço de quem parece ter carregado um trem de obrigações e humilhações nos ombros desde 1999. Sentei, e o doutor perguntou como eu estava. Eu disse: “Não estou bem.” Simples, direto, adulto. Mas, aparentemente essa não era a resposta que o psiquiatra estava preparado para ouvir.

Ele pegou meu relatório neuropsicológico, mas não abriu. Disse que, se eu tinha TEA ou TDAH, não era a área dele, enquanto segurava o laudo como um panfleto de pizzaria entregue no semáforo, virando de um lado, virando do outro, mas sem demonstrar o menor interesse em, de fato, ler o conteúdo.

Foi aí que percebi que eu estava diante de um adepto da Psiquiatria por Osmose: esse método inovador, aprovado em… sei lá onde, no qual basta aproximar o laudo da aura do médico para que o conteúdo atravesse o envelope, as camadas atmosféricas, o ego do doutor e, por mágica, atualize o diagnóstico sem necessidade de leitura. Parece ficção científica, mas não: é só uma quinta-feira qualquer.

Sem abrir absolutamente nada, ele decreta que eu tenho depressão reativa. Reativa a quê? Segundo ele: problemas. Meu diagnóstico psiquiátrico, portanto, reduz-se ao conceito de que “você é sensível à vida”. Meu corpo reage à existência como quem reage a camarão vencido: uma alergia emocional, um choque anafilático de responsabilidades, um inchaço metafísico de demandas acumuladas.

E ele continua, como se tivesse recebido informações por telepatia: diz que eu não faço terapia, não faço atividade física e não sigo orientações. A prova? Um caderninho secreto onde, aparentemente, minha vida inteira foi resumida em três parágrafos escritos com a pressa de quem tem uma fila de consultas e zero vontade de empatia.

Tento explicar que fiz terapia de janeiro a agosto e que, quando voltei a trabalhar, perdi o horário por incompatibilidade, que busquei outras opções e que começarei com uma nova psicóloga na semana seguinte. Ele me corta com a elegância de uma serra elétrica: “Você sempre vem com desculpas.” Claro, porque explicar a própria realidade se chama desculpa; talvez eu devesse ter respondido com emojis ou sinais de fumaça, para facilitar a comunicação.

Chegamos então ao momento mais poético da consulta: a comparação financeira. Segundo ele, tudo o que gastei em remédio poderia ter virado poupança, bastava ter tido mais força de vontade ao invés de querer resolver problemas com medicação. Respirei fundo. Venlafaxina? Placebo, segundo o doutor. O efeito é psicológico. Mas “ser resiliente”, isso sim, é farmacologia pura. Saí do consultório com a seguinte receita:

1 cápsula de “aguente firme” pela manhã,

1 comprimido de “pare de frescura” após o almoço,

30 gotas de “a vida é assim mesmo” antes de dormir.

Reações adversas: culpa, vergonha, vontade de sumir, sensação de fracasso, choro contido e aumento súbito do desejo de trocar de médico.

Escuto tudo em silêncio, não porque concordo, mas porque descobrir que um profissional minimiza sua dor dá uma preguiça tão profunda de responder que a gente simplesmente deixa a cena terminar. Saí pior do que entrei, mas ainda assim saí.

E do lado de fora encontrei o que me faltou lá dentro: acolhimento, humanidade, lógica, realidade concreta. Descobri que a psiquiatria não é aquilo, que dor não é falta de resiliência, que sofrimento não se cura com sermão, que a vida desmonta pessoas e elas têm direito de pedir ajuda sem levar bronca.

E descobri algo ainda mais importante: resiliência não é suportar o insuportável; resiliência é levantar a cabeça, respirar fundo e pensar: “Chega. Eu mereço cuidado, não condenação.”


Lágrimas regando milagres

Fer


segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

3. Não sou um robô



Há algumas semanas, eu estava no quadro ensinando porcentagem. A mesma porcentagem que ensino há vinte e sete anos, aquela velha companheira que entra na sala comigo e, se pudesse, me chamaria pelo nome. Eu seguia meu roteiro habitual, segura, quase no piloto automático. Os alunos, do outro lado, com aquele clássico ponto de interrogação estampado no rosto de quem não entende por que um dia vai precisar daquilo. Tudo dentro do normal.

Até que, no meio da explicação, minha cabeça fez um barulho de rachadura, como se algo tivesse trincado por dentro. A lógica simplesmente desapareceu. A conta sumiu. Meu cérebro ficou tão branco que dava para projetar um filme nele. Fiquei parada, olhando para o quadro, enquanto a porcentagem me encarava de volta com um certo deboche. E, pela primeira vez em quase três décadas, quem estava com cara de interrogação era eu.

Enquanto eu tentava desesperadamente puxar da memória qualquer traço de raciocínio, surge a aluna brilhante, aquela que sempre quer aparecer, sempre sabe de tudo, sempre está pronta para brilhar. Pegou a caneta, fez a conta na lousa e explicou tudo para a turma com elegância. Eu, imóvel, observava a cena como quem olha para uma obra de arte abstrata: admirando.

A aula seguiu, a vida seguiu, mas eu não. Por dentro, ficou um eco incômodo: o que está acontecendo comigo?

Voltei para casa com a sensação de ter presenciado minha própria falha de sistema. Poderia dizer que comecei a imaginar diagnósticos, causas ocultas, possibilidades sombrias. Mas a verdade é bem menos dramática e muito mais cruel: meu cérebro simplesmente cansou. Parou de pensar. Nem teve energia para se preocupar com o que tinha acontecido. A verdade é que o cérebro também tem limite, mesmo quando a gente insiste em tratá-lo como se fosse planilha de Excel com memória infinita. Situações de apagão mental são comuns quando há estresse constante, excesso de demandas e aquele combo clássico de quem leciona: pouco sono, muita cobrança e zero pausa real. Meu sistema interno entrou no modo de emergência que os computadores usam quando esquentam demais, com funções indisponíveis até segunda ordem.

No dia seguinte, veio o pensamento fatal: eu não sou um robô. Mas, se fosse, tudo seria tão simples. Chamava o técnico, abria a tampa, trocava a peça. Talvez atualizasse o sistema, apertasse reset e pronto: Fernanda 2.0, sem bugs, sem travamentos, com bateria cheia.

Só que nem robô funciona desse jeito. Até máquina precisa desligar para não queimar. Até máquina trava. Até máquina depende de manutenção preventiva, atualização e descanso. Agora imagina o absurdo: um professor humano, de carne, osso e sentimentos, tentando operar o ano letivo inteiro sem pausa, sem manutenção emocional, sem recarga. Nem o melhor processador inventado aguentaria corrigir provas, planejar aula, lidar com trinta humores por dia e ainda sorrir enquanto explica porcentagem.

No fundo, a cena toda foi tragicômica. Por fora, dá até para rir: a professora experiente, congelada na lousa, salva pela aluna brilhante. Por dentro, a sensação era de pânico. “Será que isso é o começo do fim?”

Mas a conclusão mais honesta é simples: não, eu não sou um robô e ainda bem. Justamente porque sou humana, eu canso, falho, travo, sinto medo… e também rio de mim mesma, me reinvento, peço ajuda, deixo a aluna brilhante brilhar e, de quebra, transformo esse bug em crônica. Se até robô precisa de manutenção, eu mereço, no mínimo, descanso, cuidado, colo, consulta técnica com direito a bolo e chá, terapia e um feriado interno.

A conta de porcentagem não foi o problema. Foi o sintoma. Uma placa luminosa piscando: sua bateria está fraca, conecte o carregador. E carregador, no meu caso, não é tomada, é descanso real, limites, autocuidado e a coragem de admitir, com humor e um pouquinho de desespero, que meu corpo não é máquina… e que é exatamente isso que me torna profundamente humana.


Lágrimas regando milagres

Fer

domingo, 23 de novembro de 2025

2. Quando eu terminar, eu descanso.



Nas últimas semanas, minha vida foi um caos: minha mãe passou por uma cirurgia delicada, a escola entrou naquele período “gentil” de provas, com o conselho se aproximando, a faxineira faltou e eu passei os dias inteiros operando no modo sobrevivência automática, aquela versão de mim que acorda, trabalha, organiza, socorre, resolve e não descansa. Eu sobrevivi me prometendo: “No feriado, eu descanso. Quando tudo terminar, eu descanso.”

O feriado chegou e, veja só, eu sobrevivi. Acordei decidida: hoje eu vou levantar, beber um copo de água, pegar um livro e deitar na rede ao sol. Simples, humano e possível. Saí da cama com a convicção de um descanso merecido.

Mas, no caminho do banheiro, olhando a roupa suja suspirando no cesto, pensei: “Vou só colocar na máquina rapidinho. Enquanto lava, eu leio na rede.” Coloquei a roupa na máquina e, já que estava ali, aproveitei para recolher e dobrar a roupa que estava no varal. Voltei para a sala e percebi que a deixamos bagunçada na noite anterior, então arrumei. Passei pela cozinha, lavei a louça da pia e também passei pano no chão.

A máquina apitou e eu estendi a roupa. Olhei o relógio: já era quase hora do almoço. Fui fazer o almoço. Enquanto o fogão fazia o seu trabalho, fiz uma comprinha no mercado online porque percebi que estávamos sem coisas básicas em casa. Ainda precisava imprimir as fichas do conselho, então almocei imprimindo. Multitarefa? Não. Multi-desespero.

Depois do almoço, lavei a louça, terminei a documentação, aproveitei que estava no computador e limpei a caixa de e-mail, respondi mensagens, resolvi pendências, bati carimbo em tudo o que dava para bater carimbo. Então voltei para a cozinha e senti uma fisgada nas costas: o corpo dando aquele tapa pedagógico. Encostei no balcão, mãos apoiadas, cabeça baixa, tentando lembrar o que eu tinha ido fazer ali.

Demorei alguns segundos até a memória vir como uma piada cruel: o copo de água e o livro para ler na rede ao sol.

Bebi a água, peguei o livro e fui para a rede. O sol? Já tinha ido embora. O dia inteiro tinha ido embora. E eu, mais uma vez, tinha sido devorada por uma criatura mitológica chamada Tarefa, esse bicho traiçoeiro que se multiplica toda vez que escuta a palavra “concluída”.

No fim das contas, percebi a obviedade de que eu finjo não ver: enquanto eu insistir em descansar só depois de terminar tudo, eu nunca vou descansar. Porque “tudo” é um poço sem fundo, e eu continuo descendo como quem acredita que, lá embaixo, vai encontrar paz.

Mas paz não mora no fim da lista. Mora no meio dela. E eu preciso aprender a parar antes que o corpo pare por mim.

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

O milagre da vida

 No dia 11/11, às 5h da manhã, seguimos para o hospital. A cirurgia da minha mãe começou às 11h: foram três horas preparando um novo ritmo de vida, um implante da válvula aórtica para corrigir o coração que falhava e trazia mal-estar.

Fui acompanhada de minha irmã mais velha, e minha irmã mais nova ficou com nosso pai em casa. Enquanto o relógio corria, senti uma paz inesperada e profunda, mesmo sabendo do risco. Era como se cada respiração dissesse: “Aguente firme, você não está sozinha.”

A cirurgia foi tranquila. A recuperação, serena. No dia 11, ela permaneceu na UTI; no dia 12, no final da tarde, passou para o quarto; e no dia 14, voltou para casa.

Durante todo esse tempo, a tranquilidade me acompanhou. Cada batida do coração dela, cada pequeno sinal de vida, parecia um milagre acontecendo diante de nós. Um lembrete de que a vida é frágil, preciosa, e que mesmo em silêncio, um milagre acontece a cada instante.

Hoje, olhando para ela em casa, sinto gratidão por ela estar aqui, por respirar, por testemunhar o milagre da vida.


Lágrimas regando milagres.
Fer

#millagrimasmilagres #omilagredavida #gratidaopelavida

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Respirar: um pequeno milagre diário

 

Desafio da semana:  Respiração

"Às vezes, tudo que a gente precisa é apenas respirar."

        Durante esta semana, reserve um momento para fazer este exercício simples:

  1. Inspire profundamente pelo nariz, pensando na frase: Tudo o que preciso.

  2. Segure por um instante, permitindo que o ar preencha o peito.

  3. Expire lentamente pela boca, dizendo mentalmente: É parar e respirar.

  4. Repita 3 vezes.

  • Faça onde estiver: na mesa, no sofá, na cama, no banheiro. O importante é respirar consciente e plenamente, mesmo que seja por apenas um instante.

  • Faça esse desafio todos os dias dessa semana. Me conte como foi a experiência.


Lágrimas regando milagres.

Fer


#millagrimasmilagres #desafiodasemana #respiraçãoconsciente #pausapararespirar

domingo, 16 de novembro de 2025

Voltar para respirar

    

    Durante nove anos, este blog ficou parado. Não foi por falta de assunto, inspiração ou vontade. Foi porque, simplesmente, a vida me engoliu. E quando a vida faz isso, a gente não escreve, a gente se agarra ao que dá e torce para não virar espuma na próxima onda.

     Eu não parei porque não tinha nada a dizer. Parei porque tinha coisas demais acontecendo ao mesmo tempo. Tanta coisa atravessando o peito que eu já não sabia nem por onde respirar. 

    E então passaram dias, meses, anos. Fui vivendo como quem nada longe da margem: você não afunda de vez, mas também não chega a lugar nenhum. Só mantém o corpo boiando, tentando economizar fôlego.

    Até que, em algum momento recente, o corpo avisou que precisava voltar à superfície. Não por coragem, mas porque respirar virou urgente.

    E é por isso que estou aqui de novo: escrevendo, respirando por escrito. Porque às vezes a única maneira de continuar é transformar em palavras aquilo que quase nos sufoca. Porque escrever é, no fundo, o meu jeito mais honesto de voltar para mim mesma. Porque existe um tipo de cansaço que ninguém vê, aquele que corrói por dentro enquanto a gente faz tudo “direitinho” por fora. E porque, quando esse cansaço aperta, eu preciso desse espaço como quem precisa de ar. 

    Então este blog volta agora como deveria ter sido desde o início: um lugar para pousar as dores silenciosas, as lágrimas clandestinas, remendos feitos às pressas, e também os pequenos milagres que nos salvam no meio disso tudo. 

     Estarei aqui respirando de vez em quando. Se quiser, respire comigo.


     A cada mil lágrimas, sai um milagre. 

    E talvez este recomeço seja um deles.

Lágrimas regando milagres.
Fer

#millagrimasmilagres #respirarporescrito #voltarpararespirar

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Beauty Fair



Estou contanto os dias para a Beauty Fair. A Shinsei estará lançando produtos novos para podólogas no stand 667A; rua Q-28; Pavilhão: Azul de Estética. Não percam!

Lancamento: Higienizante Melaleuca Shinsei

domingo, 10 de fevereiro de 2013

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Crises de Ciúmes

A gente fazia um casal feliz
Até que um dia as coisas mudaram
Seu comportamento mudou bruscamente
Línguas perigosas a envenenaram

Crises de ciúmes, guerras de palavras
Não posso entender me parece incrível
Que uma convivência de fazer inveja
Em tão pouco tempo tornou-se impossível

As nossas intrigas igual cão e gato
Você agredindo e eu me defendo
Se lhe dou carinho você não corresponde
Que vida é essa que estamos vivendo

Se chego mais tarde você faz perguntas
Num tom agressivo cheio de ciúmes
Com desconfiança cheira minha roupa
Diz que está sentindo outro perfume

Link: http://www.vagalume.com.br/peao-carreiro-e-ze-paulo/crises-de-ciumes.html#ixzz2JVcY4nO8


Peão Carreiro e Zé Paulo

Louca de ciúmes

Louca de ciumes sem motivo me ofendeu, disse que eu não
valia nada..
E sem merecer fiquei calado outra vez, triste tão só
na madrugada
Quantas vezes pra não te perder eu suportei, você me
humilhar sem ter razão
Maiss eu tô cansado e não vou mais te perdoar, se quer
mau tratar meu coração

Eu cheguei tarde pra tentar te agradar, fui comprar
flores pra te presentiar
Pois era o dia do nosso aniversário !
Mas ao contrario você nem se lembrou, brigou comigo e
nem se quer se importou
Fui carinhoso e você fez o contrario..
Eu sinto, mais se não confia em mim talvez melhor nós
darmos um fim, pois o final dessa história eu conheço
Ou você muda e resolve me amar, ou eu te deixo e sei
que vou encontrar, quem me dedique o amor que eu
mereço.

Link: http://www.vagalume.com.br/luiz-fernando-e-israel/louca-de-ciumes.html#ixzz2JVbtUg6u


Luiz Fernando e Israel

Cuimenta

Saia dessa paranóia 
De dizer que tenho outra
Porque assim você vai ficar louca
É uma barra o teu ciúme possessivo
Nunca põe fé naquilo que eu digo
Me liga toda hora pra saber 
Com quem é que eu estou
No futebol com os amigos ou em 
Qualquer lugar que eu vou
Ciumenta
Para de ser tão ciumenta
Desse jeito nenhum homem te aguenta
Ah eu já nem sei o que fazer
Ciumenta
Para de ser tão ciumenta
Desse jeito nenhum homem te aguenta
Se liga ou você vai me perder.

Link: http://www.vagalume.com.br/cesar-menotti-fabiano/ciumenta.html#ixzz2JVasKA4P


Cesar Menotti e Fabiano