Não foi tristeza, também não foi preguiça, nem falta de propósito, nem drama mal resolvido. Foi o corpo. Um dia ele simplesmente não acompanhou mais, como um carro rodando há quilômetros na reserva, passando por avisos ignorados, ruídos tolerados e alertas normalizados, até que parar deixou de ser opção e virou consequência.
Não houve um colapso espetacular, nenhuma cena dramática digna de comoção, apenas pequenas falhas acumuladas que começaram a reorganizar o cotidiano: levantar da cama virou tortura, tomar banho virou desafio, sair de casa passou a ser maratona, e atividades antes neutras (responder mensagens, cumprir horários, sustentar conversas) passaram a consumir uma energia que eu já não tinha.
Mesmo assim, segui tentando, porque sempre existe essa expectativa de que o corpo acompanhe o roteiro da pessoa responsável, produtiva e funcional que a gente foi um dia. Então eu insistia, empurrava, compensava, fingia normalidade, como se o esgotamento fosse apenas uma falha passageira, até ficar claro que não se tratava de fraqueza, mas de um limite ultrapassado há tempo demais.
Diante disso, fiz o que qualquer adulta funcional faz quando algo começa a dar errado por dentro: racionalizei. Chamei de fase, de cansaço acumulado, de fim de ano puxado, de excesso de demandas, de vida adulta mesmo. Disse a mim mesma que todo mundo estava assim, que era só atravessar mais essa semana, cumprir mais essa obrigação, entregar mais esse pedaço de mim, porque o feriado estava chegando, logo viriam as férias e, com um pouco de descanso, as coisas se ajeitariam, voltariam à normalidade.
Até que a frase apareceu com uma clareza incômoda, sem dramatização, sem poesia, quase como um aviso técnico: se eu continuar, eu quebro.
E quebrar não parecia um evento abstrato ou distante, mas algo muito concreto, quase mecânico, como quando a estrutura começa a ranger antes de ceder. Eu sentia culpa por diminuir o ritmo, desconforto por cancelar compromissos, vergonha por precisar parar sem ter um diagnóstico elegante para apresentar e uma estranha sensação de ilegitimidade, como se descansar sem febre, sem atestado visível e sem explicação simples fosse uma espécie de fraude moral. Eu não estava “doente” no sentido que tranquiliza os outros, mas também não estava bem o suficiente para continuar fingindo normalidade, e esse lugar intermediário, nem saudável, nem oficialmente adoecida, revelou-se um dos espaços mais solitários que já habitei.
E foi exatamente ali, nesse território sem nome, que a lógica começou a falhar de vez, porque eu já não conseguia sustentar a narrativa de que bastava força de vontade, organização ou pensamento positivo para atravessar aquilo, nem convencer o corpo a obedecer por argumentos racionais, listas de tarefas ou promessas de “só mais um pouco”. Quanto mais eu tentava explicar a mim mesma que parar não era opção, mais evidente ficava que continuar tampouco era, porque seguir adiante passou a significar um custo alto demais: cada compromisso cumprido exigia dias de recuperação, cada tentativa de normalidade deixava um rastro de exaustão ainda maior, como se eu estivesse pagando juros sobre um limite estourado há muito tempo.
Foi então que começou a surgir, ainda tímida e quase vergonhosa, a ideia de que talvez não fosse falta de resistência, mas excesso dela; talvez eu não estivesse desistindo cedo demais, mas tarde demais; talvez o problema não fosse o corpo que não acompanhava, mas a expectativa de que ele deveria seguir funcionando independentemente do desgaste, como se fosse um detalhe inconveniente e substituível da existência. E essa percepção não trouxe alívio imediato nem solução elegante, apenas uma pergunta incômoda, que passou a ecoar com insistência crescente: se continuar significa quebrar, o que exatamente eu estou tentando provar ficando de pé?
Lágrimas regando milagres
Fer

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