domingo, 11 de janeiro de 2026

A terapia do Xuxu



Cheguei à sessão de terapia levando, como de costume, uma lista invisível de cansaços: tarefas, expectativas, culpas, medos e aquela pergunta engasgada de sempre: “até quando eu vou aguentar?”. A psicóloga me ouviu em silêncio, como quem escuta um rio que está prestes a transbordar. Quando terminou, em vez de me oferecer mais uma técnica de meditação ou respiração, ela respirou fundo e perguntou, com a maior naturalidade do mundo:
— Você já pensou em ter um animal de estimação?

Respirei fundo também, mas por outro motivo. Expliquei que cães e gatos, por mais fofinhos que pareçam nas fotos, para mim são sinônimo de fobia: pelos, pulos, barulhos, imprevisibilidade demais para uma mente em burnout. Ela sorriu, respeitando o limite, e desviou a rota da sugestão:
— Então talvez um peixinho. Pequeno, silencioso, colorido. Um ser vivo para você cuidar, sem te invadir.

Não era o tipo de prescrição que eu esperava ouvir em consultório, confesso. Um peixinho no lugar de comprimidos. Um aquário no lugar de um atestado de afastamento. Mas a ideia ficou nadando na minha cabeça o resto do dia, como se abrisse uma janelinha de curiosidade no meio da exaustão.

A minha sobrinha Giovanna comprou a ideia e resolveu ser a minha cúmplice nessa missão aquática. Entramos na loja de animais como quem entra num universo paralelo: vidros alinhados, bolhas subindo, cores cintilando. Fui direto naquilo que sempre me guia nas decisões importantes, a cor: roxo. Eu e meu marido temos esse pacto cromático: se der para ser roxo, será roxo. Sapato, caneca, caderno, roupa, capa de celular. Faltava apenas um peixe.

Quando vi o pequeno beta roxo, elegante e delicado, nadando com calma de um lado para o outro, soube que era ele. Não parecia apressado, não parecia em pânico, não parecia cansado. Ele simplesmente… existia. Enquanto eu me perguntava como é que se começa uma nova fase da vida comprando um peixe, a Giovanna já estava animada me ajudando a escolher o aquário, as pedrinhas e os detalhes do novo lar do futuro integrante da família.

A atendente foi de uma gentileza quase terapêutica. Explicou sobre a água, a frequência das trocas, a quantidade certa de ração, o lugar ideal para o aquário ficar. Respondeu às minhas perguntas inseguras como quem orienta uma mãe de primeira viagem: sem julgamento, sem pressa, com paciência. Saí de lá com um kit completo: peixe, aquário, pedrinhas, ração e um manual mental de cuidados que, no fundo, era também um lembrete de como eu precisava reaprender a cuidar de mim.

Em casa, eu e meu marido iniciamos o ritual mais sério de todos: escolher o nome. Eu queria algo curto, sonoro e, principalmente, com a nossa cara. Ele me chama de Xuxu há anos, esses apelidos que vão grudando na rotina até virarem outra forma de dizer “eu te amo”. Testamos alguns nomes, rimos de outros, descartamos os mais óbvios. Até que ele sugeriu o inevitável:
— E se for Xuxu?

Ficou um silêncio curioso na sala, o tipo de silêncio em que o coração decide antes da razão. Repetimos em voz alta: “Xuxu”. O som encaixou. Tinha afeto, tinha graça, tinha uma intimidade que cabia naquele peixinho roxo nadando num pequeno aquário que contém um universo inteiro. E assim, oficialmente, o meu tratamento para burnout ganhou nadadeiras e um nome carinhoso.

O mais bonito é perceber que ele é terapêutico não porque faz alguma coisa extraordinária, mas justamente porque não faz. Xuxu não late, não mia, não pula no colo, não me chama para passear. Ele apenas nada. Vai e volta, sobe e desce, cria pequenas coreografias silenciosas que contrastam com o barulho do mundo, com as notificações do celular, com as urgências do calendário. Enquanto tudo lá fora grita por produtividade, ele é apenas presença calma num aquário sobre a mesa.

Cuidar dele virou um lembrete diário de que o tratamento não vem sempre em comprimidos, diagnósticos e comparação de exames. Às vezes, vem em grãos de ração na hora certa, em água limpa, em alguns minutos parada olhando um peixe que não está preocupado em corresponder à expectativa de ninguém. É nesse contraste entre o mundo acelerado e o pequeno universo aquático onde o tempo parece andar mais devagar.

Nos dias em que a culpa aparece: “Como é que eu dou conta de trocar a água do peixe e não dou conta de cuidar da minha vida?”, eu olho para o Xuxu e quase ouço a sua fala silenciosa e bem-humorada:
“Calma, humana. Hoje, enquanto você lembra que eu existo, eu também te lembro que você também existe, e isso basta!”.

Lágrimas regando milagres,
Fer

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