Cheguei à sessão de terapia levando, como de costume, uma lista invisível de cansaços: tarefas, expectativas, culpas, medos e aquela pergunta engasgada de sempre: “até quando eu vou aguentar?”. A psicóloga me ouviu em silêncio, como quem escuta um rio que está prestes a transbordar. Quando terminou, em vez de me oferecer mais uma técnica de meditação ou respiração, ela respirou fundo e perguntou, com a maior naturalidade do mundo:
Não era o tipo de prescrição que eu esperava ouvir em consultório, confesso. Um peixinho no lugar de comprimidos. Um aquário no lugar de um atestado de afastamento. Mas a ideia ficou nadando na minha cabeça o resto do dia, como se abrisse uma janelinha de curiosidade no meio da exaustão.
A minha sobrinha Giovanna comprou a ideia e resolveu ser a minha cúmplice nessa missão aquática. Entramos na loja de animais como quem entra num universo paralelo: vidros alinhados, bolhas subindo, cores cintilando. Fui direto naquilo que sempre me guia nas decisões importantes, a cor: roxo. Eu e meu marido temos esse pacto cromático: se der para ser roxo, será roxo. Sapato, caneca, caderno, roupa, capa de celular. Faltava apenas um peixe.
Quando vi o pequeno beta roxo, elegante e delicado, nadando com calma de um lado para o outro, soube que era ele. Não parecia apressado, não parecia em pânico, não parecia cansado. Ele simplesmente… existia. Enquanto eu me perguntava como é que se começa uma nova fase da vida comprando um peixe, a Giovanna já estava animada me ajudando a escolher o aquário, as pedrinhas e os detalhes do novo lar do futuro integrante da família.
A atendente foi de uma gentileza quase terapêutica. Explicou sobre a água, a frequência das trocas, a quantidade certa de ração, o lugar ideal para o aquário ficar. Respondeu às minhas perguntas inseguras como quem orienta uma mãe de primeira viagem: sem julgamento, sem pressa, com paciência. Saí de lá com um kit completo: peixe, aquário, pedrinhas, ração e um manual mental de cuidados que, no fundo, era também um lembrete de como eu precisava reaprender a cuidar de mim.
Ficou um silêncio curioso na sala, o tipo de silêncio em que o coração decide antes da razão. Repetimos em voz alta: “Xuxu”. O som encaixou. Tinha afeto, tinha graça, tinha uma intimidade que cabia naquele peixinho roxo nadando num pequeno aquário que contém um universo inteiro. E assim, oficialmente, o meu tratamento para burnout ganhou nadadeiras e um nome carinhoso.
O mais bonito é perceber que ele é terapêutico não porque faz alguma coisa extraordinária, mas justamente porque não faz. Xuxu não late, não mia, não pula no colo, não me chama para passear. Ele apenas nada. Vai e volta, sobe e desce, cria pequenas coreografias silenciosas que contrastam com o barulho do mundo, com as notificações do celular, com as urgências do calendário. Enquanto tudo lá fora grita por produtividade, ele é apenas presença calma num aquário sobre a mesa.
Cuidar dele virou um lembrete diário de que o tratamento não vem sempre em comprimidos, diagnósticos e comparação de exames. Às vezes, vem em grãos de ração na hora certa, em água limpa, em alguns minutos parada olhando um peixe que não está preocupado em corresponder à expectativa de ninguém. É nesse contraste entre o mundo acelerado e o pequeno universo aquático onde o tempo parece andar mais devagar.
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