domingo, 8 de fevereiro de 2026

7. Entre esforço e cuidado

 


Entrei na consulta com uma espécie de cautela aprendida. Depois da experiência anterior, eu já não esperava muita coisa além de mais uma tentativa de explicar o que nem eu conseguia organizar direito. Falar tinha virado esforço, então eu economizava palavras. Disse o básico: que não estava bem, que estava cansada, que algo tinha saído do lugar.

Ele não me interrompeu.

Parece pouco, mas não é. Depois de semanas sendo atravessada por diagnósticos rápidos, conselhos simplificados e aquela pressa disfarçada de objetividade, ser ouvida sem disputa já era, por si só, estranho. Eu falava devagar, às vezes me perdia no meio da frase, voltava, tentava de novo, e ele continuava ali, sem completar por mim, sem traduzir, sem apressar.

Em algum momento, eu disse que não conseguia mais fazer coisas simples, que o corpo não acompanhava, que a cabeça travava, que o silêncio tinha virado necessidade e que eu me sentia como se estivesse falhando em algo básico. Falei da culpa, da sensação de estar exagerando, da dúvida constante sobre se aquilo era cansaço normal ou algum tipo de fraqueza que eu não estava sabendo administrar.

Ele ouviu tudo. E então disse, sem dramatizar, sem solenidade, quase como quem organiza uma informação: "Isso não é falta de esforço, é um quadro de esgotamento físico e mental:  burnout. A palavra ficou no ar por alguns segundos, sem fazer milagre nenhum.

Não trouxe alívio imediato, não reorganizou minha vida, não me devolveu energia. Mas também não soou como acusação, nem como julgamento, nem como uma versão mais elegante de “você precisa ser mais forte”. Pela primeira vez em muito tempo, o que eu estava sentindo não foi tratado como desvio de caráter, nem como exagero, nem como incapacidade de lidar com a vida. Foi tratado como algo que existe, que acontece, que tem peso, e isso muda tudo.

Não porque resolve, mas porque desloca a culpa. Tira o problema do campo moral e coloca no campo do cuidado. Não é mais uma falha que precisa ser corrigida com esforço, mas um problema de saúde que precisa ser compreendido, acompanhado, tratado.

Ele falou de tempo. Falou de processo. Falou de limites que não foram respeitados por tempo demais. Falou de um corpo que não é máquina, de um sistema que entra em sobrecarga e, em algum momento, simplesmente para de responder.

Nada ali prometia melhora rápida. Não havia plano milagroso, nem frase motivacional, nem aquela sensação enganosa de que, com a orientação certa, tudo se resolve em poucas semanas. Havia apenas um reconhecimento simples: isso é sério, isso precisa de cuidado, isso não se resolve na pressa.

Saí da consulta com um afastamento de sessenta dias, medicação, encaminhamento para psicólogo e orientação de atividade física. Nada mudou de imediato. Eu continuava cansada, limitada, sem dar conta. Só já não parecia mais falta de esforço.

Lágrimas regando milagres.
Fer

domingo, 1 de fevereiro de 2026

4. O silêncio que ficou

A frase veio no meio de uma conversa qualquer, dessas que começam práticas e terminam pesadas sem ninguém perceber exatamente quando foi que o tom mudou. Falavam da rotina depois da cirurgia da minha mãe, dos horários, dos remédios, das idas e vindas, do cansaço acumulado, até que alguém disse, com um suspiro que parecia carregar mais do que palavras: “A gente está está muito sobrecarregada.”

Não foi exatamente um ataque, foi pior: foi legítimo.

E, ainda assim, alguma coisa em mim encolheu.

Porque eu sabia que, de algum jeito, aquilo também falava de mim, da minha presença irregular, das minhas respostas curtas, do meu silêncio constante. Eu estava ali, mas não inteira. Eu aparecia, ajudava no que dava, resolvia o que era possível, mas não sustentava a continuidade, não ficava, não conversava, não mostrava disponibilidade. Eu vinha e voltava para dentro de mim como quem precisa respirar em outro lugar.

E isso, visto de fora, parece ausência, descaso, falta de amor.

Naquele momento, eu poderia ter explicado. Poderia ter dito que eu estava cansada, que não estava bem, que alguma coisa em mim tinha falhado nas últimas semanas. Poderia ter tentado justificar esse silêncio que crescia entre mim e o resto do mundo como uma distância involuntária. Mas não saiu nada.

Porque explicar também cansa.

Falar exige organização interna, exige clareza, exige uma energia que já não estava disponível. Cada frase parecia precisar de uma estrutura que eu não conseguia montar. Cada tentativa de dizer algo vinha acompanhada de um esgotamento imediato, como se o simples ato de transformar sensação em linguagem fosse pesado demais.

Então eu fiquei em silêncio.

Não um silêncio confortável, escolhido, desses que a gente chama de pausa. Um silêncio denso, meio áspero, que não resolve nada, não melhora o ambiente, não traz entendimento. Um silêncio que deixa o outro desconfortável e a gente ainda mais.

E, por dentro, eu queria muito estar diferente.

Queria ser a versão de mim que chega e fica, que cuida sem medir esforço, que sustenta conversa, que acolhe, que participa, que ajuda sem desaparecer depois. Queria não ter que escolher entre estar presente e continuar funcionando minimamente. Queria não sentir esse cansaço estranho, que não tem nome simples, mas ocupa tudo.

Mas o corpo não negocia com vontade.

E, naquele momento, qualquer tentativa de ser mais do que eu conseguia só aumentaria o desgaste. Não era má vontade, não era frieza, não era falta de amor. Era limite.

Só que limite, quando não vem com diagnóstico, não é respeitado. Ele é interpretado.

E o silêncio, então, vira evidência:

de ausência;
de desinteresse;
de distanciamento.

Mas, para mim, naquele ponto, o silêncio era outra coisa: era o único jeito de não me perder completamente, era o espaço mínimo onde eu ainda conseguia respirar sem ter que explicar por quê, era o intervalo necessário entre o que me pediam e o que eu conseguia entregar.

Silêncio, ali, não era descanso, era sobrevivência.

E talvez o mais difícil de tudo seja isso: saber que, mesmo quando é necessário, ele não resolve o incômodo de ninguém, nem o dos outros, nem o meu.

Lágrimas regando milagres.
Fer

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

1. O corpo, esse detalhe inconveniente



Não foi tristeza, também não foi preguiça, nem falta de propósito, nem drama mal resolvido. Foi o corpo. Um dia ele simplesmente não acompanhou mais, como um carro rodando há quilômetros na reserva, passando por avisos ignorados, ruídos tolerados e alertas normalizados, até que parar deixou de ser opção e virou consequência.

Não houve um colapso espetacular, nenhuma cena dramática digna de comoção, apenas pequenas falhas acumuladas que começaram a reorganizar o cotidiano: levantar da cama virou tortura, tomar banho virou desafio, sair de casa passou a ser maratona, e atividades antes neutras (responder mensagens, cumprir horários, sustentar conversas) passaram a consumir uma energia que eu já não tinha.

Mesmo assim, segui tentando, porque sempre existe essa expectativa de que o corpo acompanhe o roteiro da pessoa responsável, produtiva e funcional que a gente foi um dia. Então eu insistia, empurrava, compensava, fingia normalidade, como se o esgotamento fosse apenas uma falha passageira, até ficar claro que não se tratava de fraqueza, mas de um limite ultrapassado há tempo demais.

Diante disso, fiz o que qualquer adulta funcional faz quando algo começa a dar errado por dentro: racionalizei. Chamei de fase, de cansaço acumulado, de fim de ano puxado, de excesso de demandas, de vida adulta mesmo. Disse a mim mesma que todo mundo estava assim, que era só atravessar mais essa semana, cumprir mais essa obrigação, entregar mais esse pedaço de mim, porque o feriado estava chegando, logo viriam as férias e, com um pouco de descanso, as coisas se ajeitariam, voltariam à normalidade.

Até que a frase apareceu com uma clareza incômoda, sem dramatização, sem poesia, quase como um aviso técnico: se eu continuar, eu quebro.

E quebrar não parecia um evento abstrato ou distante, mas algo muito concreto, quase mecânico, como quando a estrutura começa a ranger antes de ceder. Eu sentia culpa por diminuir o ritmo, desconforto por cancelar compromissos, vergonha por precisar parar sem ter um diagnóstico elegante para apresentar e uma estranha sensação de ilegitimidade, como se descansar sem febre, sem atestado visível e sem explicação simples fosse uma espécie de fraude moral. Eu não estava “doente” no sentido que tranquiliza os outros, mas também não estava bem o suficiente para continuar fingindo normalidade, e esse lugar intermediário, nem saudável, nem oficialmente adoecida, revelou-se um dos espaços mais solitários que já habitei.

E foi exatamente ali, nesse território sem nome, que a lógica começou a falhar de vez, porque eu já não conseguia sustentar a narrativa de que bastava força de vontade, organização ou pensamento positivo para atravessar aquilo, nem convencer o corpo a obedecer por argumentos racionais, listas de tarefas ou promessas de “só mais um pouco”. Quanto mais eu tentava explicar a mim mesma que parar não era opção, mais evidente ficava que continuar tampouco era, porque seguir adiante passou a significar um custo alto demais: cada compromisso cumprido exigia dias de recuperação, cada tentativa de normalidade deixava um rastro de exaustão ainda maior, como se eu estivesse pagando juros sobre um limite estourado há muito tempo.

Foi então que começou a surgir, ainda tímida e quase vergonhosa, a ideia de que talvez não fosse falta de resistência, mas excesso dela; talvez eu não estivesse desistindo cedo demais, mas tarde demais; talvez o problema não fosse o corpo que não acompanhava, mas a expectativa de que ele deveria seguir funcionando independentemente do desgaste, como se fosse um detalhe inconveniente e substituível da existência. E essa percepção não trouxe alívio imediato nem solução elegante, apenas uma pergunta incômoda, que passou a ecoar com insistência crescente: se continuar significa quebrar, o que exatamente eu estou tentando provar ficando de pé?


Lágrimas regando milagres.
Fer

domingo, 11 de janeiro de 2026

A terapia do Xuxu



Cheguei à sessão de terapia levando, como de costume, uma lista invisível de cansaços: tarefas, expectativas, culpas, medos e aquela pergunta engasgada de sempre: “até quando eu vou aguentar?”. A psicóloga me ouviu em silêncio, como quem escuta um rio que está prestes a transbordar. Quando terminou, em vez de me oferecer mais uma técnica de meditação ou respiração, ela respirou fundo e perguntou, com a maior naturalidade do mundo:
— Você já pensou em ter um animal de estimação?

Respirei fundo também, mas por outro motivo. Expliquei que cães e gatos, por mais fofinhos que pareçam nas fotos, para mim são sinônimo de fobia: pelos, pulos, barulhos, imprevisibilidade demais para uma mente em burnout. Ela sorriu, respeitando o limite, e desviou a rota da sugestão:
— Então talvez um peixinho. Pequeno, silencioso, colorido. Um ser vivo para você cuidar, sem te invadir.

Não era o tipo de prescrição que eu esperava ouvir em consultório, confesso. Um peixinho no lugar de comprimidos. Um aquário no lugar de um atestado de afastamento. Mas a ideia ficou nadando na minha cabeça o resto do dia, como se abrisse uma janelinha de curiosidade no meio da exaustão.

A minha sobrinha Giovanna comprou a ideia e resolveu ser a minha cúmplice nessa missão aquática. Entramos na loja de animais como quem entra num universo paralelo: vidros alinhados, bolhas subindo, cores cintilando. Fui direto naquilo que sempre me guia nas decisões importantes, a cor: roxo. Eu e meu marido temos esse pacto cromático: se der para ser roxo, será roxo. Sapato, caneca, caderno, roupa, capa de celular. Faltava apenas um peixe.

Quando vi o pequeno beta roxo, elegante e delicado, nadando com calma de um lado para o outro, soube que era ele. Não parecia apressado, não parecia em pânico, não parecia cansado. Ele simplesmente… existia. Enquanto eu me perguntava como é que se começa uma nova fase da vida comprando um peixe, a Giovanna já estava animada me ajudando a escolher o aquário, as pedrinhas e os detalhes do novo lar do futuro integrante da família.

A atendente foi de uma gentileza quase terapêutica. Explicou sobre a água, a frequência das trocas, a quantidade certa de ração, o lugar ideal para o aquário ficar. Respondeu às minhas perguntas inseguras como quem orienta uma mãe de primeira viagem: sem julgamento, sem pressa, com paciência. Saí de lá com um kit completo: peixe, aquário, pedrinhas, ração e um manual mental de cuidados que, no fundo, era também um lembrete de como eu precisava reaprender a cuidar de mim.

Em casa, eu e meu marido iniciamos o ritual mais sério de todos: escolher o nome. Eu queria algo curto, sonoro e, principalmente, com a nossa cara. Ele me chama de Xuxu há anos, esses apelidos que vão grudando na rotina até virarem outra forma de dizer “eu te amo”. Testamos alguns nomes, rimos de outros, descartamos os mais óbvios. Até que ele sugeriu o inevitável:
— E se for Xuxu?

Ficou um silêncio curioso na sala, o tipo de silêncio em que o coração decide antes da razão. Repetimos em voz alta: “Xuxu”. O som encaixou. Tinha afeto, tinha graça, tinha uma intimidade que cabia naquele peixinho roxo nadando num pequeno aquário que contém um universo inteiro. E assim, oficialmente, o meu tratamento para burnout ganhou nadadeiras e um nome carinhoso.

O mais bonito é perceber que ele é terapêutico não porque faz alguma coisa extraordinária, mas justamente porque não faz. Xuxu não late, não mia, não pula no colo, não me chama para passear. Ele apenas nada. Vai e volta, sobe e desce, cria pequenas coreografias silenciosas que contrastam com o barulho do mundo, com as notificações do celular, com as urgências do calendário. Enquanto tudo lá fora grita por produtividade, ele é apenas presença calma num aquário sobre a mesa.

Cuidar dele virou um lembrete diário de que o tratamento não vem sempre em comprimidos, diagnósticos e comparação de exames. Às vezes, vem em grãos de ração na hora certa, em água limpa, em alguns minutos parada olhando um peixe que não está preocupado em corresponder à expectativa de ninguém. É nesse contraste entre o mundo acelerado e o pequeno universo aquático onde o tempo parece andar mais devagar.

Nos dias em que a culpa aparece: “Como é que eu dou conta de trocar a água do peixe e não dou conta de cuidar da minha vida?”, eu olho para o Xuxu e quase ouço a sua fala silenciosa e bem-humorada:
“Calma, humana. Hoje, enquanto você lembra que eu existo, eu também te lembro que você também existe, e isso basta!”.

Lágrimas regando milagres.
Fer

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

6. Dezembro e a Arte de Estar Presente

 


Chega dezembro, o mês mais bonito, luminoso e socialmente ativo do ano, cheio de promessas de alegria, encontros, abraços, comidas compartilhadas e aquela sensação coletiva de que todo mundo está feliz, disponível, com roupas novas e energia renovada.

É a temporada oficial das confraternizações, do Natal, do Ano Novo, das trocas de presentes, do amigo secreto, da trend das cores, do “cada um leva um prato”, das fotos sorridentes, das mesas fartas e das legendas que dizem “gratidão”. Tudo isso é bom. Encontros são bons, rituais fazem sentido, celebrar a vida é uma ideia maravilhosa.

E quando alguém falta a esses eventos, as pessoas sentem falta, mas entendem: dengue, garganta inflamada, torcicolo são problemas que levam os queridos a se ausentar dos eventos com indicação médica comprovada.

O problema começa quando o impedimento não é febre, nem dor nas costas, nem mosquito algum, mas algo bem mais difícil de explicar: a dificuldade de levantar da cama, de tirar o pijama, de pensar em comprar presente, de escolher papel de embrulho, de preparar um prato para levar, de sair de casa, de ficar mais de três horas fora, de socializar, de rir no tempo certo, de sustentar conversas leves, de fingir entusiasmo enquanto o corpo inteiro pede silêncio, sofá e recolhimento.

Porque ninguém sabe muito bem como lidar quando o motivo da falta não aparece em exame nenhum, não inflama, não incha, não sangra, mas impede. Esse cansaço que não é preguiça, essa exaustão que não é falta de vontade, essa falência interna que não ganha nome simples nem receita rápida. E o mais cruel é que, além de não ser facilmente compreendido pelos outros, ele começa a ser questionado pela própria pessoa, como se fosse exagero, drama ou incapacidade de lidar com algo básico da experiência humana.

É aí que surgem as perguntas clássicas, sempre feitas com boa intenção:
“Mas você vai ficar em casa?”
“Nem um pouquinho?”
“Você anda tão quieta…”
“Fica mais um pouco, vai.”
“É Natal.”

Como se a data tivesse propriedades terapêuticas, como se luzinhas piscando fossem antidepressivo, como se amigo secreto fosse tratamento para esgotamento profundo, como se a simples presença obrigatória pudesse, por milagre, transformar exaustão em alegria genuína.

É nesse ponto que eu começo a fantasiar com algo absolutamente improvável, mas que seria exatamente o que eu preciso: um atestado médico para faltar de mim. Um papel timbrado, assinado, carimbado, dizendo algo como: “A paciente encontra-se temporariamente incapaz de participar de confraternizações, celebrações prolongadas e interações sociais intensas. Recomenda-se afastamento da vida social, repouso emocional e silêncio.”

Nada dramático. Nada trágico. Apenas um documento que me poupasse explicações, olhares atravessados e aquele sentimento persistente de culpa por não conseguir transformar cansaço profundo em espírito natalino.

Porque, no fundo, a prescrição de que eu preciso não é de ceia, nem de presente, nem de roupa nova, nem de promessa de ano melhor. O que eu preciso não cabe na agenda de dezembro. O que eu preciso não vem embrulhado. O que eu preciso é de descanso existencial.

Lágrimas regando milagres.
Fer