domingo, 1 de fevereiro de 2026

4. O silêncio que ficou

A frase veio no meio de uma conversa qualquer, dessas que começam práticas e terminam pesadas sem ninguém perceber exatamente quando foi que o tom mudou. Falavam da rotina depois da cirurgia da minha mãe, dos horários, dos remédios, das idas e vindas, do cansaço acumulado, até que alguém disse, com um suspiro que parecia carregar mais do que palavras: “A gente está está muito sobrecarregada.”

Não foi exatamente um ataque, foi pior: foi legítimo.

E, ainda assim, alguma coisa em mim encolheu.

Porque eu sabia que, de algum jeito, aquilo também falava de mim, da minha presença irregular, das minhas respostas curtas, do meu silêncio constante. Eu estava ali, mas não inteira. Eu aparecia, ajudava no que dava, resolvia o que era possível, mas não sustentava a continuidade, não ficava, não conversava, não mostrava disponibilidade. Eu vinha e voltava para dentro de mim como quem precisa respirar em outro lugar.

E isso, visto de fora, parece ausência, descaso, falta de amor.

Naquele momento, eu poderia ter explicado. Poderia ter dito que eu estava cansada, que não estava bem, que alguma coisa em mim tinha falhado nas últimas semanas. Poderia ter tentado justificar esse silêncio que crescia entre mim e o resto do mundo como uma distância involuntária. Mas não saiu nada.

Porque explicar também cansa.

Falar exige organização interna, exige clareza, exige uma energia que já não estava disponível. Cada frase parecia precisar de uma estrutura que eu não conseguia montar. Cada tentativa de dizer algo vinha acompanhada de um esgotamento imediato, como se o simples ato de transformar sensação em linguagem fosse pesado demais.

Então eu fiquei em silêncio.

Não um silêncio confortável, escolhido, desses que a gente chama de pausa. Um silêncio denso, meio áspero, que não resolve nada, não melhora o ambiente, não traz entendimento. Um silêncio que deixa o outro desconfortável e a gente ainda mais.

E, por dentro, eu queria muito estar diferente.

Queria ser a versão de mim que chega e fica, que cuida sem medir esforço, que sustenta conversa, que acolhe, que participa, que ajuda sem desaparecer depois. Queria não ter que escolher entre estar presente e continuar funcionando minimamente. Queria não sentir esse cansaço estranho, que não tem nome simples, mas ocupa tudo.

Mas o corpo não negocia com vontade.

E, naquele momento, qualquer tentativa de ser mais do que eu conseguia só aumentaria o desgaste. Não era má vontade, não era frieza, não era falta de amor. Era limite.

Só que limite, quando não vem com diagnóstico, não é respeitado. Ele é interpretado.

E o silêncio, então, vira evidência:

de ausência;
de desinteresse;
de distanciamento.

Mas, para mim, naquele ponto, o silêncio era outra coisa: era o único jeito de não me perder completamente, era o espaço mínimo onde eu ainda conseguia respirar sem ter que explicar por quê, era o intervalo necessário entre o que me pediam e o que eu conseguia entregar.

Silêncio, ali, não era descanso, era sobrevivência.

E talvez o mais difícil de tudo seja isso: saber que, mesmo quando é necessário, ele não resolve o incômodo de ninguém, nem o dos outros, nem o meu.

Lágrimas regando milagres.
Fer

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