Chega dezembro, o mês mais bonito, luminoso e socialmente ativo do ano, cheio de promessas de alegria, encontros, abraços, comidas compartilhadas e aquela sensação coletiva de que todo mundo está feliz, disponível, com roupas novas e energia renovada.
É a temporada oficial das confraternizações, do Natal, do Ano Novo, das trocas de presentes, do amigo secreto, da trend das cores, do “cada um leva um prato”, das fotos sorridentes, das mesas fartas e das legendas que dizem “gratidão”. Tudo isso é bom. Encontros são bons, rituais fazem sentido, celebrar a vida é uma ideia maravilhosa.
E quando alguém falta a esses eventos, as pessoas sentem falta, mas entendem: dengue, garganta inflamada, torcicolo são problemas que levam os queridos a se ausentar dos eventos com indicação médica comprovada.
O problema começa quando o impedimento não é febre, nem dor nas costas, nem mosquito algum, mas algo bem mais difícil de explicar: a dificuldade de levantar da cama, de tirar o pijama, de pensar em comprar presente, de escolher papel de embrulho, de preparar um prato para levar, de sair de casa, de ficar mais de três horas fora, de socializar, de rir no tempo certo, de sustentar conversas leves, de fingir entusiasmo enquanto o corpo inteiro pede silêncio, sofá e recolhimento.
Porque ninguém sabe muito bem como lidar quando o motivo da falta não aparece em exame nenhum, não inflama, não incha, não sangra, mas impede. Esse cansaço que não é preguiça, essa exaustão que não é falta de vontade, essa falência interna que não ganha nome simples nem receita rápida. E o mais cruel é que, além de não ser facilmente compreendido pelos outros, ele começa a ser questionado pela própria pessoa, como se fosse exagero, drama ou incapacidade de lidar com algo básico da experiência humana.
Como se a data tivesse propriedades terapêuticas, como se luzinhas piscando fossem antidepressivo, como se amigo secreto fosse tratamento para esgotamento profundo, como se a simples presença obrigatória pudesse, por milagre, transformar exaustão em alegria genuína.
É nesse ponto que eu começo a fantasiar com algo absolutamente improvável, mas que seria exatamente o que eu preciso: um atestado médico para faltar de mim. Um papel timbrado, assinado, carimbado, dizendo algo como: “A paciente encontra-se temporariamente incapaz de participar de confraternizações, celebrações prolongadas e interações sociais intensas. Recomenda-se afastamento da vida social, repouso emocional e silêncio.”
Nada dramático. Nada trágico. Apenas um documento que me poupasse explicações, olhares atravessados e aquele sentimento persistente de culpa por não conseguir transformar cansaço profundo em espírito natalino.
Porque, no fundo, a prescrição de que eu preciso não é de ceia, nem de presente, nem de roupa nova, nem de promessa de ano melhor. O que eu preciso não cabe na agenda de dezembro. O que eu preciso não vem embrulhado. O que eu preciso é de descanso existencial.
Lágrimas regando milagres,
Fer.
.png)